Coluna de estreia — Dr. Luiz Felipe Monsanto | BP News

Queridos ouvintes do BP News, deixe-me me apresentar. Sou Luiz Felipe Monsanto, médico cardiologista clínico e intervencionista, com pós-graduação em Medicina do Exercício e do Esporte.

Nasci no Rio de Janeiro e há cerca de um ano me mudei para Bragança Paulista por motivos familiares. O exercício sempre esteve na minha vida, sempre fez parte da minha rotina, e encontrar em Bragança Paulista uma cidade com uma veia esportiva tão forte já fazia meu coração bater mais rápido.

No caminho dessa mudança grande, Deus colocou pessoas muito importantes na minha vida. Uma delas foi o Flavio, o homem por trás do BP News, que desde o início foi meu portal para entender tudo que acontecia na minha nova cidade — e isso fez muita diferença pra mim. Com o tempo, a amizade cresceu, e agora, com muito entusiasmo, anuncio que passo a fazer parte do time do BP News. Serei responsável por trazer pra vocês informações leves e conteúdo inteligente sobre saúde e esporte. Vai ser um prazer aprofundar ainda mais meu vínculo com essa cidade incrível e pujante.

Espero que gostem, compartilhem e consumam bastante o conteúdo que vou colocar por aqui e pelos canais do BP News. Acredite: tudo aqui é de coração. Não necessariamente só de cardiologia.

Para abrir os trabalhos, vamos falar de um dos meus temas favoritos: corrida de rua.

Antes, um parênteses. Quero chamar atenção de todos para a situação do Lito de Souza, mecânico de aviões e dono de um dos maiores canais do YouTube do país, o Aviões e Músicas.
(Conheça o canal aqui > > > https://www.youtube.com/avioesemusicas )

Lito enfrenta uma doença extremamente rara, a doença de Creutzfeldt-Jakob. Um dia a gente aprofunda o que é essa condição — hoje só peço que o apoiem no que for possível. E peço licença poética para adaptar, no título desta primeira coluna, o nome do livro dele, “Onde Morrem os Aviões”. Fica então: de que morrem os corredores.

Sei que o título impacta. Mas é basicamente a pergunta que mais ouço no consultório, de gente de todas as idades:

“Por que estão morrendo mais gente nas corridas?”

“Corrida faz mal pro coração?”

“De que o corredor tal morreu?”

Essas perguntas ficaram ainda mais frequentes depois de notícias assustadoras, como a morte de um atleta master, bem treinado, durante uma corrida em São Paulo no mês passado. Faz sentido perguntar. E faz sentido eu tentar trazer um pouco de esclarecimento — e, principalmente, tranquilidade.

Primeiro ponto, e ele é importante: correr não aumenta o risco de morte súbita na população em geral — pelo contrário, o sedentarismo mata muito mais gente, todos os dias, de forma silenciosa e sem manchete.

A morte súbita durante uma corrida é rara. As estimativas variam, mas giram em torno de 1 caso a cada 200 mil a 1 milhão e meio de corredores por prova. É raro. O problema é que, quando acontece, acontece na frente de todo mundo, com celular filmando, e a sensação de risco fica muito maior do que o risco real.

Segundo ponto: a causa de morte muda com a idade, e isso importa. Em atletas com menos de 35 anos, o vilão quase nunca é a artéria entupida — é uma cardiopatia estrutural genética (como a cardiomiopatia hipertrófica), uma alteração elétrica do coração (as chamadas canalopatias) ou uma miocardite, inflamação do músculo cardíaco geralmente causada por vírus comuns, tipo aquela gripe que o atleta treinou “levando na esportiva” em vez de descansar. Em uma fatia relevante dos casos — cerca de 1 em cada 5 — a autópsia não encontra nada de estrutural, o coração é anatomicamente normal, e a suspeita recai sobre um problema puramente elétrico. Já em corredores acima dos 35 anos, o cenário muda completamente: mais de 80% das mortes súbitas nessa faixa são por doença arterial coronariana — a tal “artéria entupida” — quase sempre uma condição que já vinha se formando havia anos, em silêncio, sem dar sinal.

E aqui está o ponto que eu mais quero que fique: a maioria dessas condições não avisa antes. A pessoa treina normal, sente-se bem, corre a vida toda sem sintoma — e é justamente o esforço físico que “descobre” uma fragilidade que já estava lá. Isso não é motivo pra parar de correr. É motivo pra fazer a avaliação certa antes de acelerar o treino.

E é aqui que entra a ferramenta mais subestimada da medicina esportiva: a avaliação pré-participação, ou simplesmente APP. É uma consulta com história clínica detalhada, exame físico direcionado e, na maioria dos casos, um eletrocardiograma de repouso — exame simples, rápido e barato, que sozinho já identifica cerca de dois terços das condições de risco. Dependendo da idade e dos fatores de risco, entram também teste ergométrico, ecocardiograma ou exames de sangue. A recomendação, resumida: menos de 35 anos e sem comorbidade, consulta médica mais ECG já cobre bem o risco; acima de 35 anos, ou com fator de risco (hipertensão, colesterol alto, histórico familiar, tabagismo), o ideal é somar um teste de esforço ou outro exame funcional.

O problema real no Brasil não é a corrida. É que a gente ainda faz pouca avaliação pré-participação — levantamentos recentes mostram que ela é padronizada em menos de metade dos eventos e clubes esportivos do país, e a presença de desfibrilador no local do evento, treinado e pronto pra uso, também fica bem abaixo do ideal. E isso pesa muito: quando o desfibrilador chega em até 3 minutos do colapso, a sobrevivência sobe para algo entre 60% e 90%, com boa recuperação neurológica na maioria dos casos. Sem essa resposta rápida, a sobrevivência raramente passa de 5%. A diferença entre uma tragédia e uma história de “quase” não é sorte — é planejamento.

Outra coisa que é importante é, se você está pensando em correr uma prova de rua, considere a estrutura da prova e se possível, estrutura de assistência médica.
Se que profundar sobre o assunto, recomendo a leitura do posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia publicado recentemente sobre o tema (link aqui. > > > Download PDF (Portuguese) )

Então fica o recado prático de hoje: se você vai começar a correr, ou vai aumentar sério o volume de treino (aquela meta de meia-maratona, por exemplo), faça uma avaliação pré-participação com um cardiologista antes de acelerar. E, treinando, preste atenção nos sinais que o corpo não deveria ignorar: dor ou desconforto no peito durante o esforço, desmaio ou quase-desmaio ligado ao exercício, falta de ar desproporcional ao que você está fazendo, palpitação estranha. Isso não é “só cansaço” — é motivo de parar e procurar avaliação, não de terminar o treino com orgulho.

Corrida de rua continua sendo, de longe, mais remédio do que risco. Só precisa ser feita com a cabeça no lugar — e o coração examinado.

É isso pessoal, vamos correr atrás da nossa saúde mas sempre com segurança 🏃🏼‍♂️🔒. Contem comigo!
Até o próxima!

Se você tiver alguma dúvida, comentário ou sugestão de temas… todos são bem-vindos!
Email: luizfelipe.cardiologia@gmail.com
Intagram: @monsanto.cardiologia

Dr. Luiz Felipe Monsanto é cardiologista clínico e intervencionista, com pós-graduação em Medicina do Exercício e do Esporte. CRM-SP 276461 | RQE 144002, 1440021.


Fontes técnicas: Lampert R, Harmon KG. “Sudden Cardiac Arrest in Athletes.” New England Journal of Medicine, jan/2026. Ritt LEF et al. “Posicionamento sobre Emergências Cardiovasculares para Eventos Esportivos – 2026.” Sociedade Brasileira de Cardiologia (DERC/SBC), Arq Bras Cardiol. 2026.

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