Coluna BP News | Dr. Luiz Felipe Monsanto Quem mora em Bragança tem uma academia a céu aberto logo na entrada da cidade e nem sempre se dá conta. Uma volta no Lago do Taboão tem cerca de 2,5 km. Isso dá algo entre 3.000 e 3.500 passos, dependendo do tamanho da sua passada. Guarde esse número: daqui a pouco ele vai fazer sentido. Antes, um pouco de história, porque o lago tem uma boa. Entre 1830 e 1850, ali existia uma lagoa nas terras do vigário da cidade, o padre José Jacinto da Silveira: o “Tanque do Padre Jacinto”. Era alimentada pelos ribeirões Caetê e Bocaina e rendia boa pescaria de traíra. No começo do século 20 já se chamava “Tanque do Canivete”. Com o tempo, simplesmente sumiu da paisagem e virou banhado. Só voltou na década de 1960, quando uma barragem recriou o espelho d’água. Ou seja: o nosso cartão-postal é, tecnicamente, uma represa. E o nome vem da taboa, planta de brejo de até dois metros e meio, cujas espigas já serviram de bucha de banho. Gosto dessa história porque ela tem um recado. O lago sumiu e voltou. Condicionamento físico é parecido: anos de sofá deixam o terreno meio banhado, mas dá pra recuperar. E não precisa de obra faraônica. Agora, a ciência. Em 2025, a revista The Lancet Public Health publicou uma metanálise da Universidade de Sydney que reuniu 57 estudos de mais de dez países. Em todos, os passos foram medidos por aparelho (pedômetro, relógio, acelerômetro), não pela memória das pessoas. Comparado a quem dá só 2.000 passos por dia, quem chega a 7.000 teve 47% menos risco de morrer por qualquer causa, 25% menos doença cardiovascular e 38% menos demência. E o detalhe que mais gosto: os 7.000 passos renderam quase o mesmo benefício que os famosos 10.000. Acima disso o ganho continua, só que mais modesto. É esse o número que o novo documento do American College of Cardiology sobre prescrição de exercício usa como meta. E quem ainda está longe dos 7.000? Outra metanálise, de 2023, publicada no European Journal of Preventive Cardiology, acompanhou quase 227 mil pessoas por cerca de 7 anos. A proteção contra morte cardiovascular já aparece por volta de 2.300 passos por dia, e cada 500 passos a mais se associaram a 7% menos risco. Não é tudo ou nada: cada pedaço conta. Uma ressalva honesta: são estudos de associação. Quem anda mais costuma ter outros hábitos saudáveis, e isso pode inflar um pouco o efeito. Mas o padrão se repete em dezenas de populações diferentes, com o mesmo formato de curva. Isso dá confiança. Agora junta tudo com o lago. O reduto da corrida em Bragança, onde atletas se misturam com pessoas que vão apenas caminhar e aproveitar um dia ao ar livre neste tesouro da cidade. Uma volta no Taboão já te tira da faixa de maior risco. Duas voltas e você bateu os 7.000, a dose que os estudos apontam como melhor custo-benefício. São uns 50 minutos de caminhada tranquila, com direito a ponte japonesa e tirolesa no caminho. E não precisa ser tudo de uma vez: uma volta de manhã e o resto acumulado no dia vale do mesmo jeito. O corpo conta passo, não CEP. Equipe BP News cobrindo eventos no lago! A receita, então: comece com uma volta, três vezes por semana. Quando ficar fácil, vira todo dia. Depois, duas. Caminhar, quase todo mundo pode começar hoje. Mas se você passou dos 40, ficou anos parado ou tem algum problema no coração e quer trocar a caminhada pela corrida em volta do lago, faça uma avaliação antes. E se aparecer dor ou aperto no peito, falta de ar fora do normal ou tontura, pare e procure ajuda. Dr. Luiz Felipe Monsanto é cardiologista clínico e intervencionista, com pós-graduação em Medicina do Exercício e do Esporte. CRM-SP 276461 | RQE 144002, 1440021. Escreve a newsletter #CORAÇÃOFORTE. Referências: 1 — Ding D, et al. “Daily steps and health outcomes in adults: a systematic review and dose-response meta-analysis.” The Lancet Public Health, 2025. DOI: 10.1016/S2468-2667(25)00164-1. 2 — Banach M, et al. “The association between daily step count and all-cause and cardiovascular mortality: a meta-analysis.” European Journal of Preventive Cardiology, 2023;30(18):1975–1985. Navegação de Post Bragança amplia estrutura da Saúde com novas ambulâncias e quase 20 mil agendamentos no mutirão